Urbanização S. Lazaro, Amarante (Prémio INH)

Com vinte e quatro anos e meio, Fernando, ou Nando para qualquer outra pessoa que pretenda expressar alguma intimidade, observa com atenção o vaivém das ondas enquanto é acariciado pela água gelada que se entranha por entre os imensos pelos que lhe agasalham as pernas. Os pés são inundados pela água do mar e à sétima onda os genitais recebem um abraço refrescante. Abre e fecha os dedos dos membros inferiores, alternando entre o direito e esquerdo, permitindo que as pequenas partículas de areia cocem a parte interna dos dedos, extremamente agradável e fora da rotina dos calcantes que normalmente se encontram aprisionados numas botas de biqueira de aço, pretas e sempre engraxadas, inibindo qualquer intimidade para além da meia. Apreciava com satisfação todas as sensações que cada vaga trazia e que lhe enchia a sua alma de prazer. Sentimentos que com vazar da água desapareciam juntamente com a areia que tentava agarrar com os pés e que lhe permitia permanecer em pé. Este movimento pendular obrigava-o a reajustar a sua posição sempre que o mar invadia o areal, caso contrário, iria tombar desnecessariamente e criar um momento de entretenimento gratuito para os todos banhistas da praia da memória, incluindo um puto de 3 anos que acabara de arrear em pleno areal e uma velha estúpida que desde há 20 minutos para cá fugia a correr das ondas enquanto imitia um aviso sonoro de alarme bastante irritante, esta situação continuou e continuará eternamente até que o by-pass que fizera no coração deixasse de funcionar. Nandinho, se por grande controlo motor não caísse e se aguentasse firme como uma estátua, as próximas ondas, que continuavam a roubar a areia que o sustentava acabaria por se subterrar até que o nível da areia lhe chegasse aos tomates. Nesta situação, dificilmente conseguiria retirar os pés do subsolo e Fernando da Silva Pinto com apenas 24 anos e meio no dia 6 de outubro de 2023 acabaria por sucumbir com a maré cheia que se aproximava. Fatigado de dançar com o oceano, espera pela sétima e mergulha. Os ossos começaram a berrar e a implorar a Nando que voltasse para o aconchego da toalha, para que o sol apenas deixasse uma fina e quebradiça camada de sal na pele que pretendia lamber prazerosamente.